Preconceito na PUC

6 11 2009

Preconceito

 

Como a própria palavra já nos diz, é uma forma de darmos conceito pré-existente a uma pessoa, nos últimos meses não tenho escrito muito por causa da minha graduação que vem me exigindo cada vez mais, mas me senti na obrigação de escrever sobre tal ato.

Na semana que o movimento GLBTS reuniu quase 2 milhões de pessoas na orla de Copacabana no Rio de Janeiro, um fato ocorrido no último dia 5 de novembro me deixou revoltado, triste e pensativo: em pleno século XXI somos hostilizados por quem somos? O diferente será sempre visto de forma a ser combatida?

O fato que narro, aconteceu muito próximo de mim, não foi comigo, pois se tivesse acontecido prometo que aconteceria muita coisa, não deixaria passar.

Dia 5 de novembro, foi final do Concurso Estilo PUC, organizado por alunos o concurso reuniu em um desfile nesta edição de 2009, 20 modelos de ambos os sexos para definirem o chamado “Estilo PUC”, essa edição teve grande destaque inclusive durante os preparativos, cobertura do Portal “G1”, Jornal “O Globo”, Jornal “Hoje” e uma chamada no “Jornal Nacional”, isso devido à grande influencia que a PUC exerce na chamada elite burguesa  “cultura e intelectual” carioca e ter entre os jurados a famosa coreógrafa Deborah Colker. Hoje, um dia após o desfile do concurso, estampa a primeira página do Portal G1, na seção “em foco”…

Para os que não foram ao campus especificamente no pilotís Kenedy, e por coincidência do destino chamado Ala da Amizade, pensam que o evento fora uma maravilha, com um grande cunho social, pois a vencedora do estilo PUC feminino foi uma moradora do Chapéu Mangueira, muito bonita por sinal.

Você, que me lê, pode estar pensando o que isso tem haver com preconceito, causa GLBT e estilo PUC. Bem um fato ocorrido não mereceu ganhar destaque nos meios onde o evento foi coberto pela “grande mídia”, um dos finalistas masculinos se apresentou com seu estilo, sendo tachado como “extravagante” (leia-se “gay”), durante sua apresentação um sapato voou da platéia, composta na maioria por alunos (leia-se “a futura elite burguesa ‘cultural e intelectual’ carioca”), por pouco não acerta a grande convidada da noite a coreógrafa Deborah Colker.

O fato em si foi dado pelos organizadores, também alunos, como isolado e nada que impedisse o ‘brilhantismo’ do evento.

Será que se o bendito sapato atingisse Deborah Colker, não estaria também na primeira capa do G1 e no jornal O Globo? Entretanto, o fato de ter sido jogado em um aluno considerado gay pelo lançador de sapato, nada tem de importante, e isto na semana em que a causa GLBT reuniu quase 2 milhões de pessoas e a cidade do Rio de Janeiro ter sido eleita o melhor destino Gay do mundo.

Me pergunto, nada que “impedisse o ‘brilhantismo’ do evento” seria o fato de que houve hostilidades e, podemos afirmar, tentativa de agressão, foi sim o fato de que mais uma vez demonstramos que 2 milhões de pessoas na orla de Copacabana gritando “não ao Preconceito” se resumiu a um único dia… outro fato vem da pagina do congresso, o congresso abriu uma enquete publica questionando sobre se a população é  a favor da criminalização da homofobia, a PLC 122/2006, esteja com 59% de votos contrários a criminalização da homofobia…

Me sinto, triste, chateado e com o coração partido, meu orgulho de ser “filho da PUC” com este ato e com a atitude tomada pelos organizadores e pela Vice-Reitoria Comunitária e prefeitura do Campus, me fazem questionar e diminuir o meu orgulho pela PUC. Uma vez que a palavra Católica representa UNIVERSAL, a mensagem Católica sendo para todos os seres vivente da Terra, a idéia, como expressa o Reitor de uma Universidade Católica, é que os saberes sejam levados a todos os povos da terra levando alem da universalidade do conhecimento a mensagem de Deus, será que o diferente não faz parte da universalidade dos povos?

O pior câncer deste mundo é o preconceito. E atos como esse me abrem os olhos que devemos continuar a lutar por nossos direitos! Convido a você que me lê, a jamais deixar que a “grande mídia” não apresente os fatos considerados “isolados e que não impedem o ‘brilhantismo’ de eventos”.

 

Viva o Orgulho GAY!

 

Juliano Lima

Graduando Engenharia Quimica – PUC-Rio


Acções

Informação

7 respostas

7 11 2009
Claudio

Gostei muito do texto, Juliano. Não sei se você notou/sabe, mas não foi atirado apenas 1 calçado (chinelo) e sim 4 chinelos em cima do aluno. Onde estava a segurança da PUC que não viu issom retirou o rapaz e deu a ele uma boa punição. Onde estava a organização do evento que deixou o ocorrido se repetir outras 3 vezes? Como parte integrante do Centro Acadêmico de Design, que representa o aluno que estava desfilando, não pretendemos deixar o ocorrido passar batido e em branco aos olhos da PUC. Vamos cobrar explicações da PUC e queremos que medidas sejam tomadas.
abraço

7 11 2009
Luma

Juliano, seu texto conseguiu passar tudo o que pensava, como filha da puc também, de Design. Ao entrarmos em uma faculdade, esperamos estar em um ambiente plural, como a própria PUC prega, com os mais diversos tipos de pessoas.
triste é saber que entre essas diversas pessoas, ainda tem as que julgam uma pessoa pelo o que ela se veste ou pela sua opção sexual, e não pelo seu caráter e pelas suas idéias.
É necessário conversas com a vice-reitoria, pois nessas horas, dá vergonha de estudar na PUC.
abraços!

7 11 2009
coisasqueeuescrevo

Amigos que comentaram no meu blog,
realmente é impressionante e inaceitavel o ocorrido, me sinto ofendido
igualmente como o aluno agredido, agradeço as palavras de carinho, mas nao
posso me calar diante desse fato.
estou elaborando um manifesto, mais detalhado e mais impactante, irei
imprimir e colar nos espaços abertos do campus, cobrando da VRC,
prefeitura do campus, organização do evento um pedido de desculpas ao
aluno e que o agressor seja punido.
Não podemos permitir que isso fique impune. A “grande mídia”, pode não ter
dado grande status ao assunto, entretanto, sabemos muito bem o que a
intolerancia, o preconceito e o ódio causaram e causam a humanidade,
exemplo clássico é o holocausto, os genocidios na áfrica, e guerras
desumanas no oriente médio.
Se a Universidade não for mais que um campo de saber e formadora de homens
racionais, compreensiveis, tolerantes e acima de tudo HOMENS de verdade,
jamais avançaremos na história e nao poderemos ter certeza que imagens e
atos contra a dignidade humana tornem a ocorrer e manchem a humanidade.

Bem amigos, se o email que vocês colocaram nos comentários forem
verdadeiros, saibam que me solidarizo com o rapaz. E espero que juntos
digamos “não ao preconceito”.

Saudações,

Juliano Lima

10 11 2009
Robert Tavares

No jornal O Globo, na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos saiu a seguinte nota: “(…) Mas Chico, peninha, não ficou entre os três e ainda foi vítima de preconceito de alguns alunos, que jogaram chinelos de borracha enquanto desfilava.
A cena chocou os apresentadores, que pediram para o público “respeitar os outros estilos” e ameaçaram chamar seguranças (…)”.
Daí eu te pergunto, será que até quando vamos ter que ameaçar, fingir ou qualquer outra coisa pra sermos respeitados?
Um agravante é o fato de tudo ter acontecido dentro de uma faculdade, e com muitas pessoas presentes. Só tenho a lamentar, esse regresso comportamental e intelectual é digno de pena…

10 11 2009
coisasqueeuescrevo

Olá Robert, fico muito feliz com sua consideração o que saiu na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos foi uma pequena nota, diluida dentro dos comentários dele.
O que me faz questionar, e ainda vou postar um texto que estou preparando é o fato de que podemos considerar a agressão na PUC ao mesmo caso da aluna da UNIBAN, o que fez a mídia não comentar sobre o ocorrido, seria o fato de a UNIBAN não possuir o mesmo ”status” da PUC, ou o fato de ter sido mais impactante para a mídia criar um análogo ao feminismo?
Bem são questões que pairam no ar. Acompanho todos os dias o Jornal Destak no Rio de Janeiro durante o meu translado de casa a faculdade e o jornal o Globo, dando preferencia a versao digital, e na ultima semana não tem um dia que não saia uma nota referente ao caso da UNIBAN…

Pergunta?

O ocorrido na PUC não foi tão grave quanto ao ocorrido na UNIBAN?

Bem como diz o velho sábio ditado: “Existe coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia nao sonha”, parafraseando o mesmo dito: “Existe mais coisas entre o interesse e o caso em si que nossa razão e olhos compreenderão.”

Agradecido pela leitura do meu blog /

29 11 2009
Sebastião M.

Ah, fala sério! É a primeira vez que entro no seu blog e, honestamente, achei meio caído o seu post. Já tem gente querendo comparar o episódio do evento na PUC com o ocorrido na UNIBAN (que exagero!). Estudo na PUC também e, na moral: nem rola preconceito contra homossexuais lá. Basta você andar no pilotis e observar as bichas de design (chiquézimas, todas ricas, por sinal), que dão “pinta” horrores, mais até do que as próprias meninas, pra se certificar que isso foi mais uma demonstração boboca de bando de mauricinhos mimados, cheios de despeita, que estavam morrendo de vontade de estarem no lugar do tal menino do desfile – o que não justifica de forma alguma tamanha infantilidade, mas, ‘pera lá, preconceito é um pouquinho demais. Sou gay assumidíssimo, tenho vários amigos gays na PUC, e posso garantir o quão a vontade todos nós nos sentimos em relação a expressar nossa orientação sexual sem sofrer nenhum tipo de represália. Acho que se o tal episódio fosse tão grave, com certeza já teria gente fazendo um bocado barulho a respeito disso (aliás, ô povo pra gostar de fazer um protesto!). O menino precisou se esquivar ou algo do tipo pra se proteger da(s) chinelada(s) por acaso?! Acredito que não! Então é óbvio que não jogaram pra acertar – jogaram pra aparecer. Por que você não procurou a organização do evento pra reclamar na hora, se se sentiu tão ofendido? E o tal menino não fez nada, ficou por isso mesmo? Se não fez, então benfeito pra ele que se conformou com a(s) chinelada(s). Outra coisa: quantidade não é qualidade. Embora eu deva parabenizar a organização da passeata em Copacabana por tamanho esforço, pela atitude mais que louvável, os dois milhões de participantes (e não manifestantes!) não querem dizer absolutamente nada, pois militância, a luta por direitos iguais, se dá no cotidiano gritando, reivindicando e fazendo barulho, botando o peito pra fora, votando nulo e boicotando impresários retrógrados que não percebem o potencial do “mercado rosa”, e não com uma parada entitulada “da diversidade” (quando na verdade é GLBT) pra “heterozinho” levar poodle & criançinhas e ver o “circo dos viadinhos”. Parada da diversidade não passa de número: as bichas vão saradas e belíssimas, montadas na grife, pra flertarem com outras bichas tão saradas e ainda mais belíssimas, mais montadas na grife ainda, pra depois se jogarem no primeiro after-parada que rolar. Cúmulo da hipocrisia! Quanto ao desfile, se sou eu que tomo a(s) chinelada(s), ficaria pelado e acabaria com o desfile, PRA AÍ sim chamar a atenção da mídia na marra. Olho por olho, falei.

Abraços.

15 12 2009
coisasqueeuescrevo

Prefiro não comentar…
Temos pontos de vista sobre ser gay e orgulho LGBT diferentes…
Te recomendo assistir ao filme “Prayers for Bobby”, sobre a história de Mary e seu filho Bobby, especialmente o que a verdadeira Mary diz no extra do filme, não sei se existe o filme legendado, pois assisti no original, mas emociona…
Abraços,
Juliano Lima

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